Como controlar nossos vícios, quando eles querem controlar nossas vidas?

Como controlar nossos vícios, quando eles querem controlar nossas vidas?

Olá, Poderosas!

Hoje vamos falar sobre as reflexões que temos que fazer em nossas vidas, extraídas do livro escrito pelo meu pai, João Francisco de Paula Gomes – “A Pousada de Elói” e abordarem um assunto muito delicado: o vício; seja ele qual for.

Mudando a Maneira de Pensar – Pensamento Positivo

Mudando a Maneira de Pensar – Meditação

Mudando a Maneira de Pensar – Contemplação

Uma Aventura em “A Pousada de Elói”

Às vezes precisamos adentrar dentro de nós mesmos e tentar encontrar as respostas que tanto procuramos e que só o nosso coração sabe onde estão. O mundo atual, talvez mais do que antes, encontra-se eivado de violência, corrupção, egoísmos e maldades em níveis alarmantes (GOMES, João Francisco de Paula, 2017).

Em uma das histórias do Livro “A Pousada de Elói”, que se  passa em uma propriedade  rural,  nas regiões do Cerrado de Minas Gerais, vamos encontrar algum alento para um problema que atinge homens e mulheres do mundo todo, em especial os jovens dessa nova geração, ou seja, os vícios: como as drogas, as bebidas, dentre tantos outros. O trecho não pretende esgotar o assunto, pois o tema é muito vasto, mas, quem sabe, talvez possa ajudar muitos de nós. Bem, embora um tanto quanto longo, vamos mostrar o texto completo extraído das fls. 69 a 89  do referido livro. As imagens mostradas não fazem parte do livro, foram incluídas apenas para atenuar a leitura. Espero que encontrem a paciência para lê-lo:

Quando os vícios querem se tornar a razão de nossas vidas

Ele havia chegado ao sítio de carro e, embora casado e pai de dois filhos, tinha vindo sozinho. Era de Curitiba, capital do Estado do Paraná, e havia chegado àquela cidade do interior de Minas, de noite. Pernoitara em um hotel e, bem cedinho, saiu rumo à  pousada que um amigo seu – que havia morado ali perto e fora encarregado de certo departamento de uma usina de açúcar – lhe havia indicado. No povoado, experimentou  uma ‘branquinha’ bastante recomendada daquele lugarejo; depois tomou um café, desses bem fortes, com pães de queijo.

Ainda não eram nove horas da manhã quando ele chegou ao sítio. Elói já o estava aguardando.

– Seja muito bem-vindo, Seu Rafael – saudou-o Anastácio.

– Prazer em conhecê-lo, Elói – disse o viajante.

– O que o traz de tão distante, meu amigo? Perguntou Elói.

– Foi um amigo meu, o Carlos Maria, lá de Curitiba, que já esteve aqui neste local e muito me recomendou que viesse.

– E o que o anda incomodando, preocupando, Rafael? Relaxe. Abra-se conosco. Você se encontra entre amigos. Estamos aqui para analisar, junto com você, o seu problema, aprendendo com ele e, se pudermos, tentar ajudar a resolvê-lo.

– Elói, há alguns meses perdi meu emprego. Estou tentando conseguir outro, mas não tem sido nada fácil – disse o visitante.

– Por que não, meu senhor?

– Também tenho brigado muito com minha esposa, com os meus filhos; até com antigos amigos estou me desentendendo – respondeu Rafael.

– Então você é casado. Quantos filhos você tem?

– Tenho dois, adolescentes, seu Elói.

– E por que estão acontecendo essas brigas, esses desentendimentos?

– Não sei. Dizem que tenho bebido um pouco além da conta. É o que eles dizem. Eu não acho – disse o paranaense.

– Você gosta de beber e já não está tendo controle sobre a bebida. Na realidade, ela é que está tomando o controle de sua vida, não é meu amigo?

Não, não é assim. Eu bebo apenas para descontrair, alegrar-me e divertir um pouco – apenas isso. Talvez tenha bebido um pouco mais ultimamente, mas acredito que foram as frustrações. Não sou um alcoólatra. Digo e repito a todo mundo: posso parar a hora que eu quiser. Todos nós precisamos de um pouco de descanso, de relaxamento. Alguns drinques nos ajudam a relaxar. Não há nada de mal nisso, não acha?

– Nenhum – garantiu Elói. – Beber com moderação, em sociedade, nunca fez mal a ninguém – completou Anastácio.

– Pois é o que sempre digo à minha esposa e filhos, mas eles não me compreendem. Vivem me recriminando sem razão.

– Porém, Seu Rafael, segundo o relato que sua esposa me passou via “e-mail”, as coisas não são bem assim.

– Por que não? O que foi que ela disse, Elói?

– Que você tem chegado em casa ultimamente – muitas e muitas vezes -, bêbado, querendo agredi-la e aos filhos, com palavrões e até fisicamente. Quebra coisas dentro de casa, atirando-as nas pessoas. Perde o controle. Depois se arrepende de haver bebido.

– Mas eu não me recordo de nada disso. Não me lembro que tenha praticado essas coisas – disse o visitante.

– Meu jovem, às vezes, precisamos ser francos:  isso não é beber em sociedade, com moderação. Onde irá desaguar esse rio alimentado pelo vício da bebida, que vai sendo engrossado com a violência, degradação e destruição? Os sinais de perigo lampejam  toda  vez que uma pessoa bebe mais do que pretendia e  fica irresponsável por seus atos, ou começa a ter lapsos de memória, vertigens, preferindo o álcool ao alimento em todas as horas do dia e da noite.

Era um momento delicado aquele. O visitante abaixara os olhos, parecia querer chorar. Era como se tivesse levado um murro na cara. Parecia que estavam querendo abrir a sua Caixa de Pandora[1]. Mas Elói sabia que precisava continuar:

– Rafael, posso fazer mais algumas perguntas? Ou você quer parar?

– Pode sim, Elói. Continue. Eu não posso recuar agora. Minha vida, meu emprego, minha família, dependem disso. Para isso, de tão longe, vim até aqui.

– Então relaxe. Você está entre amigos. O nosso intuito é apenas de ajudá-lo. Espero que consigamos fazer isso. Está pronto?

– Pode perguntar, Elói. Estou pronto. Seja o que Deus quiser – disse o visitante.

– Você anda bebendo de manhã? Quantas vezes na semana? Com que regularidade, com que frequência?

– Sim, não posso negar isso. Provavelmente em muitos dias da semana. Às vezes, mais de uma vez no dia.

– Tem sentido algumas tonturas, vertigens? Tem-se sentido muito cansado ultimamente?

– Realmente, agora que tocou nesse assunto, sim. Muitas vezes.

–  As suas relações sexuais tem sido satisfatórias?

– Para ser sincero, não. Na realidade, têm piorado cada vez mais. Estou sempre cansado, às vezes, exausto; desanimado de sexo e de tudo.

– Tem-se sentido frustrado ou culpado de alguma coisa ocorrida no passado? Alguma coisa que ficou mal resolvida?

– Sim, para falar a verdade, acho que as duas coisas: frustrado e culpado.

Sente-se impelido a buscar a companhia de pessoas nesta mesma situação, ou seja, pessoas deprimidas, frustradas, magoadas, desiludidas, revoltadas? Lugares deprimentes, sombrios, decadentes o estão atraindo cada vez mais?

– Você está adivinhando tudo, Elói. Parece estar lendo a minha mente.

– De alguma forma, eu conheço bem essas etapas. Depois falo sobre isso. Mas agora, embora, às vezes, possa ser doído, vamos continuar: você enxerga ou, ao contrário, não vê defeitos em você mesmo, que o possam ter levado a ficar assim deprimido, frustrado? Está constantemente culpando as pessoas, os outros, pelos seus atos?

– Agora que está tocando nesse ponto, acredito que estou principiando a enxergar. Minha mente está começando a entender o que eu sempre evitava encarar de frente.

– Até que ponto você acha que a bebida, ou seja, o álcool se tornou um problema para você e sua família?

– Está bem, Elói. Você tocou na ferida: eu tenho problemas com a bebida. Não há como negar, pois agora enxergo claramente isso. Tenho que reduzir, diminuir essa bebida; e é isso que vou fazer.

***

Nesse momento, os dois homens foram surpreendidos por uma voz que, lá da porteira, perguntava:

– Seu Anastácio, o senhor vai querer frango caipira, hoje?

– Vou sim, Sinhá Chiquinha. Veja lá dentro com Da. Lurdinha quantos ela vai querer. Esses frangos já estão depenados e limpos?

– Estão sim, Seu Anastácio. Pode deixar que eu combino com a Lurdinha lá na cozinha.

– Obrigado, Sinhá Chiquinha – complementou Elói.

Sinhá Chiquinha, como era chamada, era uma senhora viúva, de nome Francisca de Jesus, e morava em uma propriedade rural próxima ao sítio de Elói. Tinha dois filhos adultos, sendo que um deles era casado e residia na cidade; e o outro, ainda solteiro, de nome Antônio, continuava com ela na propriedade.

Ela criava porcos, patos e galinhas em seu sítio, para vender. O seu filho Antônio a ajudava na lida com os animais, sendo que, no caso dos suínos, era ele que os abatia, sapecava e limpava.

Para complementar a engorda dos porcos, Sinhá Chiquinha constantemente recorria ao sítio de Elói, procurando por frutas, como mangas, goiabas etc., caídas no chão, que o Joquinha juntava para ela. Esses frutos maduros eram transportados em um carrinho de mão, empurrado pelo filho Antônio; esse carrinho era já bastante usado e ia rangendo pela estrada, fazendo:

– ‘Nheim! Nheim! Nheim!’.

E mesmo de longe, ainda se ouvia:

– ‘Nheim! Nheim! Nheim!’.

O chiqueiro, ou pocilga, onde criavam os porcos – que não eram muitos -, era coberto, mas arejado, cimentado e dispunha de água adequada para lavagem das instalações do mesmo, com um sistema de esgotamento, que permitia carrear as fezes dos suínos para um tanque localizado mais abaixo, onde criavam alguns peixes para consumo e até para a venda. Antônio havia participado, junto com Seu Mino e Seu Neco, na cidade próxima, de um curso sobre manejo correto de animais, assim como criação de peixes, com profissionais especializados no assunto.

Sinhá Chiquinha também cuidava de uma horta, bem tratada e bastante sortida, protegida por uma lona plástica transparente, como uma estufa e, nas laterais, por uma tela – para evitar as galinhas -, onde plantava verduras e legumes, como: alface, couve, repolho, cheiro verde, tomate, cenoura, vagem, chuchu, dentre outros. Os produtos da horta, além do consumo próprio, também eram destinados à venda. O sítio do Elói era um dos bons clientes dela.

Então, Seu Anastácio retornou a conversa com o visitante:

– Rafael, você agora se encontra sóbrio e diz que vai reduzir, vai diminuir o consumo de bebidas alcoólicas. Mas diga sinceramente: nos últimos tempos, quantas vezes você prometeu a você mesmo e seus familiares que iria fazer isso e, no entanto, não conseguiu, voltando a beber? Quando isso irá parar? Como tudo isso vai terminar?

Houve um momento de silêncio, que, embora breve, parecia uma existência. Não se ouvia nem o cantar dos pássaros. O tempo parecia ter parado por alguns instantes. Nem a tesourinha que passou voando baixinho, graciosa, com sua cauda longa em forma daquele instrumento de corte – que lhe rendeu esse nome -, rompeu o silêncio. O moço suava frio e, depois de muito pensar, falou:

– Você tem razão, Elói. Muitas e muitas vezes, eu prometia a mim mesmo e à minha família que iria parar, e um tempo depois recomeçava tudo de novo. Provavelmente eu já não possa controlar a minha bebida. Acho que fui longe demais com tudo isso. Será que já sou um alcoólatra?

– Certamente o senhor já está à beira do alcoolismo, ou então?

***

Nesse momento, ali perto, o menino Joquinha e seus amigos Gabriel, Gabryelle Cristiano e Ritinha observavam uma plantinha rasteira, que havia se espalhado naquele local, entre a grama do solo. Estavam acompanhados por Seu Mino, que pacientemente lhes mostrava como ela recolhia as folhas, fechando-as – num processo de encolhimento -, ao ser tocada levemente com um pedacinho  de um galho seco.  Era uma planta sensitiva (mimosa pudica), ali conhecida como dormideira. Ele explicou que se tratava de uma defesa natural da planta, que pode ocorrer de forma bastante ágil em algumas espécies. Era um movimento conhecido por sismonastia, que faz com que elas murchem, encolhendo as folhas. Mas o efeito era temporário e, após um tempo sem ser tocada, as folhas voltariam a abrir. Os meninos ficaram encantados com aquela reação da planta, que se retraía – mal comparando, quase à semelhança de um tatu-bola quando é atacado.

***

– Então o quê, Elói? – perguntou Rafael.

– Possivelmente – ao que tudo parece indicar – você já seja um alcoólatra, meu jovem.

– Você tem razão. Agora enxergo isso claramente. É duro de acreditar, mas é a verdade. E como parar, Elói? Entendo que preciso fazer isso, mas onde encontrarei forças para tanto? Perguntou o rapaz.

– Você agora está sendo sincero, Rafael. Não adianta parar por uns tempos e depois recomeçar a beber. Você já fez isso de outras vezes, como me disse. Provavelmente vai precisar da ajuda dos familiares e de procurar um médico para determinar o quanto seus órgãos já foram afetados, como o fígado, o pâncreas, o aumento do baço, o cérebro,  dentre outros. Também deve procurar um bom psicólogo ou psiquiatra. Ocorreram  transformações  químicas em seu corpo, devido ao consumo constante do álcool, e agora o seu organismo precisa cada vez mais dele, como de um combustível, um alimento, uma fonte de energia – ainda que seja uma fonte assim tão ruim e prejudicial. Distúrbios mentais ou emocionais farão cada vez mais que você procure consolo, abrigo, refúgio na bebida, fazendo-o ainda mais se sentir pior,  agressivo, infeliz, frustrado, derrotado e dependente do álcool.

– Quer dizer que eu não posso mais beber? Nem de vez em quando?

– Não, Rafael. Você tem que parar e continuar sem beber, se quiser salvar seu casamento, sua família, seu emprego, sua vida. Também seria bom frequentar uma Associação de Alcoólicos Anônimos  lá da sua cidade. Você agora está enxergando esse abismo à beira do qual já estava quase despencando, numa queda sem volta, meu amigo. Entender, reconhecer isso é muito bom. Muitas pessoas não conseguem ver isso – dão desculpas, enganam a si mesmas, acreditando que podem parar à hora em que quiserem -; e o final é sempre trágico, como você pode ver diariamente pelos noticiários da mídia. A sua luta, daqui para a frente, é por toda a vida, Rafael. É uma luta diária, persistente, intermitente.

– E como sabe disso tudo, Elói?

Eu também já fui um alcoólatra, meu amigo. Isso foi há bastante tempo. Tive problemas sérios com a bebida por mais de dez anos. Quase perdi tudo: bens, emprego, família, amigos. Já faz mais de quinze anos que parei de beber. Às vezes, Rafael, em nossas vidas, a gente se envereda por caminhos tortuosos, que nos pareciam alegres, festivos, dos quais seria fácil retornar, voltar à hora em que quiséssemos. Depois, vamos descobrindo, aos poucos, que, na realidade, tratava-se apenas  de uma alegria momentânea, passageira, que acabava desaguando num mar de tristeza, depressão, frustração. Então, é hora de acordar do pesadelo. Não podemos adiar essa decisão. Precisamos nos reerguer, enfrentar o problema de frente e solucioná-lo.  Como dizia meu pai: os problemas que se nos apresentam, da mesma forma que ocorre na Matemática, estão aí para serem resolvidos. Depende tudo isso apenas de nós. Lembre-se: Eu sou o capitão do meu destino. Agora, sem dúvida alguma, assumi o comando!

– Mas onde arranjou forças para parar, Elói?

– Na época, tive um enorme apoio de minha esposa, que me ajudou a reerguer a minha vida. Foi ela o anjo-da-guarda que me tirou do atoleiro, do abismo em que estava caindo. Eu a amo demais. Quando compreendi claramente que iria destruir para sempre a minha família, que eu amava, passei a orar muito e, ajudado pela Zulmira, por meus falecidos pais e alguns bons amigos, encontrei as forças necessárias. Eles não desistiram de mim. Não me abandonaram. E Ele, o maior de todos, deu-me as energias de que eu precisava.

– Quem é essa pessoa, meu amigo?

Deus, o Imensurável, o Grande Arquiteto da Vida, a fonte inesgotável da força e do amor. Dádivas sem fim fluem Desse manancial, quando as pedimos. Depois que tomei a  decisão  de parar de beber e consegui superar os obstáculos, voltei a estudar, prestei um concurso público numa área de que gostava e consegui passar. Lembro-me, ainda hoje, de quando saí daquele desvio traiçoeiro e retornei à rota correta, ao caminho original. Foi uma bênção, meu jovem. Hoje já faz alguns anos que estou aposentado nesse cargo. Então passei a escrever. Com o apoio de Zulmira, construímos este sítio, que era um antigo sonho nosso. Voltei a viver. Quando falamos com convicção: eu sou capaz! Eu vou mudar! – as barreiras caem como se fossem peças de um dominó enfileirado.

– É você tem razão. Eu preciso provar a mim mesmo que consigo isso. Amo minha esposa e meus filhos e quero ser um exemplo para eles. Eles precisam muito de mim. Mas não adianta nada ficar falando nisso se eu não mudar. Deus vai me ajudar nessa empreitada. Tenho bons amigos que também vão estar comigo. Sei que minha família vai estar ao meu lado nessa transformação, pois eles me amam muito. Mas já não será muito tarde para mim, Elói?

– Nunca é tarde, quando abrimos o nosso coração, deixamos de ser pequenos e partimos para a mudança. É isso aí, meu jovem! Parabéns! Você tem todo um futuro de sucesso pela frente. Depende apenas de você. Não pode desistir agora, não pode desanimar, vá em frente,  supere os obstáculos, atropele-os se for preciso, mas não volte para trás. Você é forte, sempre foi. Você consegue!  Afaste-se dos locais e das pessoas  que  querem  deprimi-lo,  puxá-lo para baixo, arruinar você, seu lar, seu futuro.  Esqueça o passado, as mágoas, os ressentimentos, o ódio contra as pessoas e o mundo. Aprenda a perdoar: esse é o segredo do maior bálsamo da vida. Seja responsável pelos seus atos. Só você é. Não culpe os outros. Viva o momento presente, o agora. Passe a ser o timoneiro de seu navio: comande-o firmemente, enfrentando, com bravura, o mar à sua frente, superando toda e qualquer dificuldade. Enfrente as vicissitudes, as adversidades que lhe são apresentadas. Você é inteligente, é valente, é capaz, sempre foi. Você é filho de Deus.  Avance para a frente, rumo a sua felicidade e da sua família. Não olhe para trás. Como disse Jesus, no evangelho de Lucas:

“E Jesus lhe disse: Ninguém, que lança mão do arado e olha para trás, é apto para o reino de Deus. (Lc, 9:62)”

E, emocionado, ainda acrescentou:

– Que a sua coragem inspire outras pessoas, como nos lembra a frase de Billy Graham (1918-):

 “A coragem é contagiante. Quando uma pessoa corajosa assume uma determinada postura, as outras também se erguem.”

– Também é preciso lembrar que ninguém muda a sua vida enquanto não mudar a sua maneira de pensar – completou Anastácio.

– Como assim, Elói?

– De acordo com algumas correntes do pensamento positivo, onde se destacam diversos defensores ilustres, tais como Dr. Joseph Murphy (1898-1981), Claude M. Bristol (1891-1951), Harold Sherman (1898-1987), Emile Coué (1857-1926), Padre Lauro Trevisan (1934-), Augusto Cury (1958-), dentre tantos outros, podemos entender que o nosso  subconsciente  acata tudo aquilo – de uma forma cega e obediente – com que, insistente e vigorosamente, o impregnamos através de mensagens emitidas pelo consciente, sejam elas positivas ou negativas. Então, se você repetir mentalmente, de uma forma contínua, ordens positivas, tais como nos ensinaram, dentre  outros,  os  grandes  escritores e pensadores, o norte-americano Dr. Joseph Murphy* e o brasileiro Padre Lauro Trevisan*, por exemplo:

Eu sou forte e corajoso!

Eu sou sadio,  sou saudável!

Eu sou vitorioso,  sou um vencedor!

Eu sou alegre,  contente e  feliz!

Eu sou protegido por Deus, e tudo posso Naquele que me fortalece!

Eu sou amado,  querido e admirado!

Eu tudo consigo, tudo alcanço!

Eu sou capaz; com Deus, tudo posso realizar!

E complementou:

– A sua fé, a sua palavra dita com convicção, é uma ordem, que não voltará vazia a você, conforme nos ensina o Profeta Isaías, no Antigo Testamento:

“Assim será a minha palavra, que sair da minha boca; ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz e prosperará naquilo  para que a  enviei (Isaías, 55:11)”.

Dito isso, prosseguiu:

– Segundo essas correntes do modo de pensar positivo,  você se transforma naquilo que pensa,  em que acredita, que afirma vigorosamente. Mas é necessário dizer essas palavras diversas vezes por dia, principalmente, ao amanhecer, quando acordar, e, ao anoitecer, na hora de dormir, com convicção, com persistência, com perseverança, durante muito tempo. Então as coisas ao seu redor começam a mudar, a fluir de forma alegre, positiva e feliz. Você modifica o seu modo de pensar e isso muda a sua vida. Também esses ensinamentos estão alicerçados, ou melhor, estão em comunhão com os ensinamentos de Jesus, que foi um grande entusiasta da fé, do modo de pensar vigoroso e positivo. Os evangelhos do Novo Testamento estão repletos de pensamentos positivos, de fé. Passe a ler esses evangelhos – além de livros de escritores dessa linha do pensamento positivo –  e você encontrará muita coisa a reforçar o seu ânimo, a dar vigor  ao seu espírito. Aqui também nos lembramos do que disse Sidharta Gautama, o Buda:

Somos o que pensamos. Tudo o que somos surge com nossos pensamentos. Com nossos pensamentos, fazemos o nosso mundo.”

E ainda considerou:

– Então,  o nosso  subconsciente  se  impregna  desse novo modo de pensar e age segundo esse novo padrão, como nos ensinam, dentre outros,  aqueles escritores e pensadores citados há pouco. Embora não possamos apagar, como num  computador, os arquivos de memória  de nosso cérebro,  podemos,  no entanto gravar sobre  eles  outros arquivos com  novas formas de pensar, como nos ensina o grande pensador e escritor brasileiro Augusto Cury (1958-)[1], dentre outros. Assim fazendo, vamos passar a manifestar aqueles novos padrões, que agora gravamos nas nossas mentes, em nosso dia-a-dia, no nosso cotidiano. Esses novos padrões, pouco a pouco, vão produzindo os resultados positivos e vão se impregnando em nosso modo de pensar, de agir, modificando nossas vidas para melhor.

Olhou para o visitante, como para um grande amigo, e continuou:

Não somos exceção. Todos nós temos problemas, Rafael, milhões, em todo o mundo, com bebida, como o que você está enfrentando agora, e que eu também enfrentei por longos anos; outros milhões com drogas; inúmeros enveredam pelo mundo do crime, do tráfico, matam pessoas, arrasam famílias e, no final, são mortos; mulheres, homens e até crianças, perdidos num mundo de prostituição; muitos com corrupção etc.  São tantos os problemas que afligem os seres humanos, que não há como listá-los, enumerá-los aqui, meu amigo. Você os vê por todos os lados, basta olhar à sua volta. Graças a Deus, assim como eu fiz há mais de quinze anos, você deu o primeiro passo para se livrar do mal da bebida: você reconheceu essa dependência com relação ao álcool e quer se livrar dela. Esse é o passo mais importante que você está dando em sua vida.  E, melhor ainda, você sabe que pode contar com sua família e com Deus, que muito o amam. Agora depende de você; mostre a sua garra, a sua força. Você pode. Você sabe que pode. Então vá em frente!

Lembrou-se de um caso ocorrido e voltou a falar:

– Rafael, lembrei-me agora de um rapaz que me disse que seu pai era dependente  de  bebida  e,  depois  de  ter  largado  o vício, tornou-se o líder de uma AA – Associação de Alcoólicos Anônimos local.  E ele, o filho, também havia se enveredado pelo mesmo caminho que o pai trilhara um dia,  entregando-se à bebida. Seu pai ficava constrangido quando as pessoas, nas reuniões, questionavam sobre seu filho, sendo ele o líder da associação local. De certa feita, o rapaz, que havia se casado e tinha dois filhos, tomou a decisão de parar de beber para dar exemplo a seus filhos e também por amor a seu pai. Recuperou a saúde, a vida. Hoje são todos felizes. Não é tão difícil assim, basta reconhecermos realmente que temos o problema e partirmos de fato para solucioná-lo! Não adianta adiarmos essa decisão!

Finalmente complementou:

– Vamos recordar o que, com veemência, ensinou-nos São Paulo e seguir avante:

“Irmãos, quanto a mim, não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo, … (Epístola de Paulo aos Filipenses, 3:13-14)”

***

Nisso, lá vinha o solteirão convicto do Adamastor, o popular Canarinho, com mais uma de suas composições improvisadas:

‘Olha o sorvete,

Olha o picolé!

Tem sorvete de fruta,

E até de café!

Tem picolé de manga,

Também de tamarindo e caju,

Murici, sapoti, acerola e pitanga,

Cajamanga, maracujá, carambola, e até de umbu.

E sabem quem faz o sorvete,

E também o picolé?

Ora, é Da. Lurdinha!

Mãe do Joquinha,

E da Josefa, ou melhor, Maria José,

Lá do sítio do Seu Istácio,

Cujo nome verdadeiro,

É  Anastácio,

Mas que gosta de ser chamado

De Seu Elói,

Mas que afirma que não é mestre,

Guru, guia, médium, curandeiro,

E muito menos herói!

………………………………

Olha o sorvete,

Olha o picolé!

Tem sorvete de fruta,

E até de café!’

***

Anastácio convidou o visitante a acompanhá-lo em uma visita pela propriedade rural. Foram até o lago, beberam da água cristalina e fresquinha de uma nascente; visitaram também o pomar, colhendo algumas tangerinas ponkan, que estavam bem maduras e muito doces.

Um casal de jacus que se encontrava por ali, assustado com os cachorros do sítio, voou para cima de uma árvore.

O garoto Joquinha, juntamente com seus amigos Gabriel e Cristiano, brincavam de jogar bolinhas-de-gude, ou como dizem lá, jogavam biloca, bilosca, birosca, no terreiro da propriedade. Haviam feito alguns orifícios no solo para essa brincadeira. As suas amiguinhas, Gabryelle e Ritinha, também ali perto, brincavam de boneca e de fazer o almoço, enchendo as  panelinhas de brinquedo com barro. Essas crianças eram muito amigas do Joquinha, moravam em propriedades rurais próximas dali, eram bastante alegres e estavam sempre brincando juntas.

Também faziam parte das suas diversões as brincadeiras com pião – desses em que se enrola um cordão em seu corpo e, com jeito, lança-se ao chão para rodar -;  disputavam quem fazia rodopiar melhor o pião. Todavia era preciso muito cuidado com essa brincadeira, conforme Seu Mino lhes havia ensinado, visto que poderiam se machucar com esse artefato.

Havia ainda as brincadeiras com bilboquê – que as crianças faziam com uma latinha de extrato de tomate, presa a um cordão e a uma pequena haste de madeira -, cujo intuito era jogar a latinha para cima, fazê-la dar uma cambalhota no ar e encaixar na haste que se segurava com uma das mãos.

Certamente – quando crescessem -, iriam todos eles se lembrar desses bons tempos em que conviveram despreocupados, juntos. Um tempo que não volta mais. Por isso, é preciso ser respeitado.

***

Então uma conhecida voz os chamou para o almoço:

– Seu Istácio, o almoço está pronto.

– Já estamos indo, Da. Lurdinha – disse Anastácio.

O almoço, embora caseiro, era bem farto, com um frango caipira preparado junto com o arroz, milho verde e temperos, que, naquelas bandas, chama-se galinhada. E a boa senhora sabia fazer uma como ninguém, salpicando, por cima, bastante cebolinha cortada e cheiro verde.

Também havia, na mesa, um pote com uma conserva de jurubebas, feita também por ela. Essas jurubebas eram colhidas ali mesmo, de alguns pés plantados na pequena horta – cujos frutos lembram uma ervilha verde, embora bem maiores. Apesar de ser considerada um pouco amarga – para alguns paladares -, ali na pousada, era muito apreciada para se adicionar aos pratos, nas horas das refeições. Quem gosta sabe do que estamos falando. Parece até que aumenta o nosso apetite.

A fumaça que desprendia da panela de barro, com a deliciosa galinhada, descontrolava qualquer cidadão.

O suco bem gelado era de tangerina, colhida ali mesmo na propriedade.

Rafael comeu da galinhada e repetiu várias vezes. Não parava de elogiar aquela comida extraordinariamente gostosa.

Após o almoço e a geleia de goiaba com queijo Minas, também um saboroso cafezinho, o visitante falou:

– Obrigado, Elói. Embora assustado com tudo que enxerguei nesse tempo em que conversamos, compreendo que é a realidade que eu não queria enfrentar. Agora preciso me tratar, como você disse. Posso voltar em outra ocasião, meu amigo?

– Claro que pode Rafael. Será um prazer. Teremos um encontro num fim de semana, no final deste semestre – ao final do ano – com diversos participantes. Venha até o sítio. Traga sua família.

– Virei sim, Elói. A nossa conversa, esse lugar, tudo isso mexeu muito comigo. Agora depende de mim.

– É claro, meu amigo, você é o agente da sua mudança interior. Ninguém pode fazer isso por você. E, quanto ao encontro, não se esqueça de fazer a sua reserva e avisar quanto ao número de pessoas, para que possamos planejar esse evento adequadamente.

– Pode deixar.

– Aproveite a tarde para, após um descanso, percorrer a propriedade. Sinta-se em casa. Pernoite essa noite no sítio, Rafael. Deixe para viajar amanhã.

– Farei isso, meu amigo. Agora vou me deitar em uma dessas redes estendidas na varanda.

– Bom proveito, meu amigo. Estou por aí, também aproveitando deste local do qual parece que nunca me canso.

– Nem diga, Elói. Nem diga!

***

Quando o visitante acordou da sesta, no quintal em frente à entrada da sede, uma garnisé  passeava com seus pintinhos. E esses eram muitos. Depois, uma pata passou – num passo engraçado de ginga para a direita, ginga para a esquerda, como se estivesse movimentando um bambolê -, também desfilando com vários patinhos, todos felpudos, amarelinhos. Só depois de algum tempo, é  que seria substituída aquela penugem amarela – que lembrava a gema do ovo -, mas que era muito macia.

Perus passeavam também por lá. Nervoso, o macho, quando ouvia qualquer barulho, grugulejava:

– Gru-Gru! Gru-Gru!

E ele parecia estar incomodado, pois logo voltou a grugulejar:

– Gru-Gru! Gru-Gru!

Canários-da-terra, sendo o macho bem amarelo, mas com parte da cabeça muito vermelha, como fogo, haviam feito ninho nas telhas da varanda onde ele se encontrava. Já estavam com filhotes, que gritavam sem parar, pedindo comida.

Beija-flores de todos os tamanhos e cores vinham buscar, nos bebedouros colocados nas plantas próximas à entrada, o doce líquido. Eles brigavam muito entre si. Eram  muito territorialistas. As cambacicas, aqueles passarinhos pequeninos, de dorso pardo, meio escuro e peito amarelo – que lembravam um bem-te-vi em miniatura -, também vinham sorver do líquido adocicado. Elas tinham que se esconder constantemente dos colibris, que eram implacáveis. Nos bebedouros, elas se apoiavam, com os pés, nas flores plásticas – muitas vezes, de cabeça para baixo -, para sorver o líquido açucarado.

Rafael saiu a percorrer a propriedade. Passou pelo apiário de colmeias de abelhas europeias, pelo milharal e mandiocal, caminhou pelo pasto, vendo as poucas, mas bem tratadas, reses, e chegou até ao curral. Nos moirões do curral, canários-da-terra amarelinhos davam um “show” de canto.

Passou depois pelo horto, onde ficou assentado em um dos bancos, por um longo período, debaixo da sombra das árvores. Uma garoa fina começou a cair e, depois de algum tempo, levantou no ar aquele gostoso cheiro de terra molhada.

Do curral, também emanava um pouquinho do cheiro do estrume do gado, que, molhado pela chuvinha, rescendia por ali, fazendo o homem voltar no tempo, na infância, como num sonho.

Um monte de grama recém-cortada, também umedecida pela chuva, exalava seu cheiro que, adentrando pelos pulmões do visitante, parecia acalmar sua alma.

Aqueles odores, misturados aos perfumes das árvores em flor, pareciam conter todos os cheiros do mundo, transportando o homem para lugares mágicos, longínquos, tranquilos.

Em toda a parte, a energia da vida parecia cercá-lo por todos os lados. Havia música no ar. Os instrumentos eram tocados por seres de todos os tipos e cores. Há muito tempo, não via a vida com aqueles olhos. Quanto tempo perdido em botecos, em bares escuros, sujos, deprimentes! Quantos momentos desperdiçados com bebedeiras, depressões, tristezas! A vida estava lá: tudo era tão simples. Por que não enxergara isso antes?

Após o lanche da tarde, Rafael foi para seu aposento, onde passou a ler alguns trechos de livros que Elói havia separado para ele.

No outro dia cedo, após um lauto café da manhã, o visitante partiu.

– Então até o encontro, meu amigo Elói.

– Não será fácil. Mas você conseguirá a mudança que tanto anseia. Boa viagem, Rafael.

Anastácio sabia bem do que estava falando. No seu caso pessoal, foram longos anos lutando para se livrar daquele vício tão nocivo, tão destrutivo, tão devastador.

Mas, se não encontramos as forças necessárias para essa mudança em nós mesmos, a encontraremos em Deus, que se encontra alojado dentro do interior de cada um de nós. Se pedirmos com convicção, com uma vontade verdadeira de mudar, Ele nos atende. Ele está aí  bem pertinho: dentro de nós. É o nosso grande Pai, nosso grande Amigo. Existimos pelo Seu grande amor que nos criou. Vamos abraçá-Lo mentalmente ao dormir. E repetir isso ao acordar.

O proprietário da pousada lembrou-se das palavras reconfortantes de São Paulo:

“Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que  é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai. O que também aprendestes, e recebestes, e ouvistes, e vistes em mim, isso fazei; e o Deus de paz será convosco. (Epístola de Paulo aos Filipenses, Capítulo 4,8-9) ””

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[1] Caixa de Pandora’: Tirada do mito da criação de Pandora, que foi a primeira mulher criada por Zeus. Trata-se, portanto,  de  um artefato da mitologia Grega.  A caixa era, na verdade, um grande jarro dado a Pandora, antes de ter sido enviada à Terra, que continha todos os males do mundo: como a discórdia, a guerra e todas as doenças do corpo e da mente, e apenas um único dom: a esperança. Embora tendo sido recomendada para que jamais abrisse a caixa, Pandora, vencida pela curiosidade, acabou por abri-la, liberando no mundo todos aquele males, mas a fechou antes que a esperança pudesse sair.

Fotos: Google Images / Reprodução

Autor:
João Francisco de Paula Gomes – A Pousada de Elói –  1ª Ed. Uberaba: Ed. Colégio Cenecista Dr. José Ferreira, 2015

 

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