Olá, Poderosas!

Muitas vezes procuramos respostas a problemas que nos afligem, que nos deixaram marcas, feridas doídas que não querem cicatrizar e, que, na verdade, tais respostas não se encontram em livros, em outras pessoas, em outros ambientes e, talvez, em lugar algum. O único lugar que vamos encontrar essas respostas é adentrando pelos caminhos de nosso interior e, aparentemente simples, não é uma viagem tão fácil assim. Às vezes é muito difícil olharmos para dentro de nós mesmos… Mas, não temos outra saída. Com muita frequência, os ressentimentos, as mágoas surgem facilmente, mas muitas vezes são muito difíceis de serem extirpados.

Em mais uma das histórias do Livro “A Pousada de Elói”, que se  passa em uma propriedade  rural,  no interior de Minas Gerais, vamos mostrar um caso bem comum desse tipo de situação que nos atinge, de uma forma ou de outra, indistintamente. O texto é apenas exemplificativo e, de forma alguma, esgota o assunto. Por isso mesmo, no livro, este caso que agora apresentamos (fls. 25 a 41), se concatena a outro, ou seja, ao outro lado da moeda, representado pela história: Quando compreendemos que enveredamos por um caminho errado” (fls. 104 a 114), onde vamos ver o sócio de José Carlos, o Sr. Paulo Marcos – também em uma viagem à pousada -, em busca do perdão de atos cometidos que estão assolando sua alma.

No entanto, este outro caso, embora se encaixe ao que agora transcrevemos, será apresentado em outro episódio, nas próximas semanas.

As imagens incorporadas neste texto, não fazem parte do livro e foram incluídas apenas para atenuar a leitura. Embora o texto seja um pouco longo acreditamos que não será tão enfadonho assim lê-lo. Então, esperamos que todos tenham uma boa leitura:

“- EM BUSCA DA VERDADE DA VIDA –

  • Como nascem alguns ressentimentos?

O empresário viera diretamente da capital mineira para aquela cidade do interior do Estado de Minas Gerais.

Agora, ainda era muito cedo, mas um pouco mais de uma hora havia se passado desde que havia deixado aquela cidade do interior rumo ao pequeno distrito. José Carlos estava quase chegando ao local desejado. Pelo caminho, o ônibus passara um bom trecho em estrada asfaltada, mas agora seguia por um caminho de terra, e isso havia feito aquela viagem tornar-se bem mais cansativa do que o esperado, embora a localidade não distasse mais de cinquenta quilômetros daquela cidade interiorana.

 A partir de então, como estávamos em plena primavera, a paisagem que ele podia vislumbrar pela janela da condução era estonteante, de uma beleza exuberante, recompensadora. Árvores diversas, algumas até frondosas e floridas, pareciam correr ao lado do ônibus. Coqueiros também surgiam, ora aqui, ora acolá, como se tivessem sido salpicados entre a vegetação, que, embora não fosse de grande porte, naquela época, estava viçosa e colorida com as primeiras chuvas.

Haviam chegado ao pequeno vilarejo. Poucas ruas, algumas delas sem calçamento ou asfalto, formavam o pequeno distrito. Embora sem qualquer planejamento, a localidade parecia hospitaleira, bem arborizada e de clima ameno. Mais ao centro da cidadela,  uma  praça repleta de plantas e flores dava um toque todo especial àquele lugar. Bancos espalhados pela praça recebiam a proteção generosa e agasalhadora das copas de árvores frondosas e, naquela época, coloridas de flores.

Devido a alguns pequenos engenhos de cana-de-açúcar existentes no povoado, alguns fabricando rapaduras, outros cachaça de primeira, e também porque alguns senhores vendiam garapa no entorno da praça – diga-se de passagem: deliciosa – extraída de canas muito especiais da região, o lugarejo era conhecido como Distrito da Garapa. Mas, como alguns moradores não gostaram do nome e no local existiram e ainda existem alguns pés de murici – alguns bem grandes -, cujas frutas amarelas e de um sabor muito marcante eram muito apreciadas por lá, ficou conhecido como Povoado do Murici.

O viajante hospedou-se em uma das duas únicas pensões que existiam no pequeno distrito.

Após um banho e uma xícara de café, resolveu procurar pelo homem que lhe haviam indicado.

 Percorreu por cerca de um quilômetro, uma estradinha de terra, estreita e tortuosa, até chegar ao local onde aquele homem, tão recomendado, residia.

Tratava-se de um sítio, onde se encontrava erigida uma casa de proporções adequadas  para uma pousada: não muito grande, aparentemente bem construída, de cores alegres, embora suaves.

Havia uma boa varanda, contornando toda a residência; o que lhe dava um aspecto de um ambiente fresco e acolhedor. Uma folhagem trepadeira pendia por várias partes do telhado dessa varanda, dando um toque especial de tranquilidade e paz àquela moradia.

Aos fundos da casa, havia um lago e um pequeno riacho, que, serpenteando por entre as árvores, fluindo por entre cascalhos e pequenas rochas em seu caminho, por cerca de uns mil metros, desaguava em um rio, que também não era de grandes proporções.

O homem o esperava, conforme haviam combinado pelo telefone. Convidou-o a sentar-se com ele em alguns bancos dispostos debaixo de um enorme flamboyant, que, àquela época, estava recoberto de flores, que de tão vermelhas e exuberantes, faziam com que a árvore parecesse recoberta de fogo.

José Carlos, agradecendo ao homem por atendê-lo, perguntou:

– Mestre, qual é mesmo seu nome?

– Obrigado por nos visitar, meu jovem. Meu nome é Anastácio. Mas, por favor, se você não se incomodar, não me chame de mestre nem pelo meu nome.  Chame-me simplesmente de Elói.

– Por que Elói?

– Porque esse pseudônimo sempre me agradou e resolvi adotá-lo. Não existe nenhuma correlação bíblica, religiosa. Apenas gosto desse nome.

– Elói, sabe o que me trouxe até aqui?

– José Carlos, meu amigo, isso eu não poderia adivinhar. Você não me adiantou nada pelo telefone nem através de “e-mail”. Sabe, até gostaria de possuir algum dom extra-sensorial, como o da clarividência, mas não o possuo. Também não sou nenhum adivinho.

Isso, o proprietário rural falou rindo, em tom de brincadeira. Depois concluiu:

– Assim como você,  sou um ser humano comum, que está em busca da verdade da vida.

– E o que é a verdade, Elói? – perguntou José Carlos.

Elói olhou para os lados, como a procurar por alguma coisa. Seu olhar se fixou em um bando de garças, que, àquela hora da manhã, saía para se alimentar. Eram talvez as últimas aves, as remanescentes daquela manhã. Elas voavam bem rente à lâmina d’água do rio – como a poupar esforço no vôo -, e depois subiram juntas, como que unidas, parecendo um grande lençol que estivesse sendo transportado pelos céus.

O homem não respondeu à pergunta de José Carlos. Com as mãos, roçou de leve nas penas de um pequenino beija-flor que sorvia água açucarada em um bebedouro próprio para pássaros, dependurado num arbusto, ali perto deles. A ave pareceu não se incomodar com aquele leve roçar dos dedos do homem, continuando a sugar insistentemente a doce bebida.

No céu, agora o sol brilhava radiante, atiçando uma enorme variedade de vida, ora de insetos, ora de pássaros. Uma profusão de sons e cores invadia aquela pequena propriedade, enchendo o coração dos que ali estavam de uma coisa pura, não arquitetada pelas mãos do homem, da criatura.

Elói levantou-se e chamou o viajante para que o acompanhasse até a nascente do pequeno riacho. Tratava-se de um espelho d’água de pouca profundidade, ladeado por vegetação nativa e alimentado por fontes: minas, olhos d’água, que brotavam do solo e produziam um leve ruído, como se fosse um murmurejar, um blup-blup.  Sapos e rãs coaxavam por ali, e o vento ciciava entre a vegetação rasteira.

De repente, vendo e sentindo tudo aquilo, o visitante se viu frente a frente com o que ensinam as verdades eternas contidas no Salmo 23, do livro dos Salmos, do Antigo Testamento:

“O SENHOR  é o meu pastor, nada me faltará.

Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranquilas.

Refrigera a minha alma;…”

Não havia por que ter pressa… Toda indagação, toda inquietação, toda aflição terminavam ali. Os dois homens ficaram quietos, parados e, naquele lugar, agora, só havia o ambiente, mais nada:  apenas os pássaros, as borboletas, os insetos,  as flores e o som calmo das águas; permeado ele pelos vários matizes das cores, pelos inúmeros aromas e sabores da vida.

Inesperadamente uma tranquilidade enorme invadiu o coração de José Carlos. Naquele instante, pelo menos naquele breve momento, cessaram todas as aflições, todas as revoltas, todas as indignações, todas as ânsias, todas as angústias, todos os sofrimentos, todos os medos.

Elói convidou o viajante a beber da água fresca, virgem, cristalina de  uma pequena mina d’água que jorrava da fonte e também fluía para o riacho. O líquido puro, de um frescor como que adocicado – colhido em uma folha larga de uma planta -, desceu pela boca do visitante, preenchendo todas as suas entranhas, revitalizando todo o seu corpo, que, embora jovem,  encontrava-se um tanto quanto sem cor, sem viço, reavivando também sua alma, que, de há muito, andava sombria, opaca, esmaecida, sem brilho. Seu espírito, naquele momento em que o tempo havia parado por alguns instantes, encharcou-se de luz, da energia pura que permeia todo o Universo e que tem a capacidade de nos renovar a esperança da vida.

O convidado, naquele momento, lembrou-se de uma pérola, de um bálsamo, também do antigo Testamento, que nos diz:

    …; e este é o refrigério;…” (Isaías, 28:12).

Alguns marrecos que se encontravam em terra adentraram o pequeno lago, formado pelas nascentes d’agua, no seu afã de chegar até o rio. Havia alguns filhotes entre eles, e as suas plumagens eram de uma penugem ainda amarela, como se fosse tingida por uma gema de ovo. Ao sol, aqueles marrequinhos pareciam pequenos tufos amarelos – pequenos flocos de algodão doirados, boiando no lago.

Anastácio voltou a falar:

– Não podemos encontrar a verdade tão facilmente, meu jovem. Também estou à procura dela há muito tempo. Descobri que posso encontrar, de maneira mais simples, todas aquelas coisas que não são a verdade e, dessa forma, evitá-las.

– Como assim, Elói? Explique melhor essas suas ponderações, disse o jovem.

– Vamos por parte. Você tem filhos? É casado?

– Sim, tenho dois filhos: um casal. Eles ficaram lá na capital mineira, onde moro, juntamente com minha esposa.

– Você ama seus filhos? – Perguntou Elói.

– Sim, claro que eu os amo.  São eles a razão de minha vida, respondeu o visitante.

Veja bem, essa energia, chamada de amor, é uma boa coisa, não acha?

– Claro que é. Acredito que esse é o sentimento maior que move o mundo – respondeu o rapaz.

– Sendo assim, esse sentimento não é uma coisa má, ruim, concorda?

– Concordo plenamente!

– Logo, esse sentimento puro, essa energia, aproxima-se da verdade, está contida na verdade, não acha?

–   Continuamos de acordo – disse o moço.

– Ama sua mulher? Perguntou o homem.

– Acredito que ainda a amo, apesar de nossas relações estarem um tanto quanto estremecidas, sendo essa uma das razões de o haver procurado.

– Existem outras razões que fizeram com que você viesse até aqui?

– Sim, não consigo esquecer um fato ocorrido comigo há pouco tempo, quando uma pessoa que eu tinha como meu melhor amigo, que inclusive era meu sócio na empresa, deu-me um duro golpe, desfalcando a firma e deixando-a numa delicada e má situação.

– Onde se encontra essa pessoa, esse seu ex-sócio, hoje seu ex-amigo? Perguntou Anastácio.

– Ele fugiu, levando uma grande quantia em dinheiro, deixando um rastro de dívidas a serem pagas pela empresa.

– Você desenvolveu um grande ódio para com essa pessoa, não foi?

– É verdade, não posso negar isso. As lembranças do ocorrido me invadem os sonhos, transformando-os em pesadelos medonhos, assustadores. Com isso, veio a descrença nas pessoas, na sociedade, na vida.

– E isso tem abalado os seus nervos, tem afligido o seu coração, tem transtornado a sua vida e também a sua alma;  isso certamente alterou sua pressão arterial, provocando uma úlcera gastrica, de fundo nervoso, além de tirar a sua vontade de se alimentar direito, minando-o por dentro, desfigurando-o por fora e ainda tornando-o  irritadiço  para  com  todas  as  pessoas, e pior ainda, levando-o a um estado de depressão e isolamento, não é?

 – É bem verdade. Estou uma pilha de nervos, e isso tem afetado o meu sono, o meu trabalho e a minha vida familiar,  induzindo a inúmeras brigas com minha esposa e outros familiares e amigos. Mas, como você sabe disso?

– Ora, para isso não é preciso ser nenhum adivinho, nenhum vidente. Estou apenas interpretando os fatos narrados por você mesmo. Qualquer leigo, assim como eu, pode fazer isso.

– E aonde isso nos leva? Perguntou o visitante.

– Vamos com calma, por que a pressa? Veja bem, esse ódio, essa sede de vingança, não é algo bom, pois está prejudicando exatamente você e sua família, que já foram vítimas do ocorrido, que já sofreram muito com tudo isso, não acha?

– Colocando dessa forma, você tem razão, Elói. Acontece que não há como evitar esse sentimento que queima minha alma, que ferve meu sangue, que espinha o meu coração.

– Pois bem, José Carlos, mas vamos juntos continuar nossa viagem por novas descobertas, rompendo novas fronteiras. Também espero aprender e muito com toda essa sua história. Então, você há de concordar comigo que esse sentimento, resultante do ocorrido, é ruim, maléfico, que o prejudica e aos seus. Portanto, é um sentimento distanciado das verdades eternas, concorda?

– Colocado nesses termos, não há como não concordar, disse o jovem visitante.

– Logo, meu jovem, os sentimentos de ódio, de vingança não estão também contidos, não fazem parte desta coisa maior pela qual procuramos e por que tanto ansiamos: a verdade da vida – estamos de acordo?

– Quero acreditar que sim, Elói, mas meu coração que ainda se encontra muito machucado, diz que não… Diz que é preciso mantê-los, pois só eles sobraram. Parece que esses sentimentos agora são a razão de minha existência.

– No seu íntimo, você os está guardando e alimentando, com todo o zelo e carinho, como se fossem as únicas coisas que restassem em sua vida – a sua razão, agora, de viver – não é mesmo meu jovem?

– É você tocou na ferida, no ponto certo. É isso mesmo. Mas que fazer? Disse o rapaz.

Elói ia fazer mais algumas colocações, mas uma voz conhecida, de uma maneira bem característica dos mineiros, chamava-os para o almoço. Tratava-se de Da. Lurdinha:

– Seu Istácio, a bóia está na mesa!

– Quem é essa senhora? Perguntou José Carlos.

– É dona Lurdinha, a senhora que cuida da residência e que prepara minhas refeições quando venho para este sítio. Na verdade, seu nome é Maria de Lourdes, mas todos a conhecem no vilarejo vizinho como Dona Lurdinha.  Trata-se de uma senhora de mais de cinquenta anos, mas muito dinâmica e zelosa de suas obrigações. Bastante sistemática, evangélica, não se acostumou a me chamar de Elói. Também não consegue falar Anastácio… Logo, ficou Seu Istácio. É uma senhora muito querida, de um coração de ouro.

Dona Lurdinha era uma senhora viúva que tinha uma filha, de nome Josefa, e dois filhos; Josefa era a mais velha dos três. A dedicada senhora era aposentada e morava no pequeno vilarejo, próximo ao sítio de Elói. Quando ele se encontrava  na pousada, ela, juntamente com sua filha Josefa,  encarregavam-se  de preparar o café da manhã, as refeições e os lanches para Seu Istácio e também para aqueles visitantes que constantemente procuravam o local.

Na propriedade rural, havia alguns quartos com banheiros, onde regularmente se hospedava algum viajante que vinha de carro e não encontrava vaga nas duas únicas pensões do pequeno distrito. Eram aposentos simples, mas bem cuidados e limpinhos. Dispunham de algumas das comodidades da vida moderna, como chuveiro elétrico, televisão e  ventilador no teto.

O sítio também possuía uma residência para o caseiro que ali morava. Apesar de não ser muito grande, tinha sido bem construída, possuindo todas as acomodações necessárias a ele. Esse caseiro, senhor viúvo, com apenas um filho, tinha quase uns sessenta anos de idade, mas desfrutava de uma ótima saúde. Seu nome era Belarmino Antônio, mas, como Da. Lurdinha, também não conseguia se acostumar com esse nome, chamava-o de Seu Mino. Esse senhor, juntamente com seu filho, conhecido como ‘Júnior’ – rapaz de uns 18 anos -, cuidavam da propriedade, fazendo a limpeza, tratando dos animais domésticos, cuidando de algumas vacas, plantando milho, mandioca e algumas verduras e hortaliças para consumo próprio do sítio. Também cuidavam do pomar, do horto e demais árvores que seu Elói havia mandado plantar. Dessa forma, o local estava sempre bem cuidado, limpo, arejado.

Anastácio jogou algumas canecas de ração para os peixes no lago, dessas que boiam sobre a água. Logo, os marrecos, alguns patos e gansos provocaram um rebuliço, juntamente com pequenos peixes, como lambaris-de-rabos-vermelhos, carás e tilápias, no afã de comer aquelas bolotas de ração. Pássaros, como bem-te-vis – cujo dorso era de uma cor parda escura e o peito amarelinho -, desciam em voos rasantes sobre a água e, a cada descida, traziam no bico uma daquelas bolinhas de alimento. Certamente levariam até seus ninhos, para seus filhotes. Alguns peixes um pouco maiores, como piaus, algumas piabas grandes, pacus, curimbatás e carpas, também se deliciavam com aquela ração flutuante.

 Do outro lado do lago, algumas reses pastavam o capim que, nessa época já se encontrava verdinho e tenro de novo. Alguns pássaros: – anus-pretos e anus-brancos – acompanhavam os bovinos, alimentando-se dos insetos, como grilos, gafanhotos e carrapatos, que eram espantados da vegetação onde estavam devido ao movimento dessas reses enquanto pastavam. Algumas garças-carrapateiras, ou garças-vaqueiras, como são conhecidas, também seguiam os animais, tentando abocanhar algum inseto. O gado, àquela hora do dia, andava calmo, lento, lerdo, indolente, muito diferente dos homens nas grandes e médias cidades do mundo.

Também do outro lado, em uma cerca de arame, junto a umas tantas moitas de capim – que, nessa época, estavam repletas de sementes -, alguns pequenos passarinhos, de uma cor azul profundo –  quase negros -, saltavam para cima, davam uma pirueta, uma cambalhota no ar e caíam novamente assentados sobre o arame da cerca, no intuito de se exibirem para as fêmeas, chamando-lhes a atenção, produzindo, nesse número acrobático, um som estridente, som este que inclusive lhes dava o nome (Onomatopéico):

– Tiziiiu! Tiziiiu!

E novamente, como meninos travessos, brincalhões, pulavam e cantavam:

– Tiziiiu! Tiziiiu!

Naquele momento, daquele lugar onde estavam os dois homens, só existiam o movimento pachorrento do gado, o trinado do tiziu, o colorido dos pássaros, plantas e insetos, o murmurejar das águas da fonte, do regato. A energia pura da natureza desceu sobre eles, envolvendo-os numa aura de tranquilidade e paz. Por alguns instantes, por uns breves momentos, José Carlos sentiu roçar na alma aquelas leves brisas de uma época quando ainda era feliz.

Ali perto, um garoto, morador de uma propriedade vizinha, passou carregando um som, em que a rádio da cidade próxima ao distrito tocava uma bonita música, na voz afinada, suave, doce e como que aveludada, ou ainda, como um toque de seda, da  conhecida cantora nacional Marisa Monte. Naquele momento, como se um uirapuru cantasse na floresta, todos os outros sons silenciaram para ouvir a delicadíssima música que enchia os ares e transportava o espírito rumo ao sublime: o encontro da criatura com o Criador.

Novamente o dono do sítio e o visitante se deixaram quedar por alguns instantes ante aquela música maviosa. As energias elementais, universais, presentes naqueles dois corpos, uniram-se à do menino que passava e se fundiram com a energia daquela suave melodia, como se fossem uma única energia, leve, livre e flutuante, como brancas nuvens esparsas, soltas no ar.

Ali, agora, não havia corpos distintos, era só uma comunhão de almas, de espíritos, bailando no nada, como se fosse uma sinfonia de esferas. Uma pequena fagulha se acendia no interior, no coração de José Carlos, como a querer lhe mostrar que a felicidade não era algo assim tão difícil, tão distante, tão irreal.

Então, Elói e o viajante chegaram até a sede da propriedade, onde estava servido o almoço.

A boa cozinheira havia preparado um frango caipira – desses bem graúdos – acompanhado de arroz, angu de milho verde e quiabo. A fumacinha, saindo dos pratos colocados à mesa, denotava o frescor da comida. O belo-horizontino, sentado àquela mesa simples, mas confortável, sentindo aquele aroma dos alimentos e seus temperos, parecia ter voltado a ser criança, degustando desorientado daqueles pratos.

Acompanhava a refeição um delicioso suco de tamarindo gelado. Esses tamarindos eram colhidos de um enorme pé, plantado no quintal da propriedade. Embora a polpa dessa fruta – encapsulada em bagas dentro de uma vagem alongada – fosse um tanto quanto azeda ao ser degustada ao natural, quando transformada em doce e depois batida no liquidificador com açúcar e água gelada, produzia um suco de sabor especial. O picolé feito com essa fruta era uma maravilha.

– Coma à vontade, José Carlos. Depois você vai provar as sobremesas de Da. Lurdinha. Coisa de outro mundo – falou Elói.

Após o almoço e a sobremesa de doce de mamão em talhas e em calda e de cidra ralada, acompanhados de um macio e suculento queijo de Minas, a boa senhora serviu um cafezinho daqueles que nos fazem lembrar que existe muita coisa boa na vida a ser saboreada.

Ao final da refeição, o proprietário, como era de seu costume, fez uma oração de agradecimento a Deus, que foi acompanhada pelas pessoas que ali se encontravam.

A paz, como uma bênção, descia sobre a pousada e as pessoas que ali estavam.

Elói voltou a falar:

– José Carlos,  vimos um pouco daquilo que não está contido nas verdades eternas, nos preceitos fundamentais do Criador, fundamentos estes que Ele espalhou por todo o Cosmos: não são leis exclusivamente nossas, os terráqueos, são Leis Universais.  Estão em todos os mundos. O que se afasta desses preceitos, como o ódio, o ressentimento, o desejo de vingança, assim como todos os sentimentos negativos, também deles nos devemos afastar. Então nos aproximaremos dessas verdades puras, não maculadas pela ação das mentes em escuridão.

– É. Estou começando a entender, Elói. Mas acho que ainda tem uma grande distância para que eu percorra e, nesse caminhar, descarregue, alivie o meu coração ferido – falou o visitante.

Anastácio encerrou o diálogo, complementando:

– Já é um começo, meu amigo. O tempo poderá ajudar. Não há como termos paz, alegria, felicidade, se não extirparmos da alma esses ressentimentos, essas mágoas,  esse ódio, que se encontram enraizados no mais profundo de nosso ser, e que guardamos com tanto zelo, com ferrenha dedicação, como se fossem as únicas coisas que nos sobraram. A vida é muito mais que isso. Libere esses sentimentos que estão minando-o por dentro, afligindo seu espírito, destruindo sua vida e de seus familiares. A Justiça cuidará que esta pessoa que tanto prejudicou você e a sua empresa  pague pelos atos criminosos cometidos.

– Será, Elói? Vemos tantos casos de impunidade por aí – disse o jovem.

– Nada neste mundo fica encoberto, impune, José Carlos. Mais cedo ou mais tarde tudo vem à tona. Ainda que a Justiça humana falhe, as Leis Universais, não.

– É, espero que sim, meu amigo.

– José Carlos, como havia lhe explicado, orientamos a todos os que vêm até a nossa propriedade que aproveitem para usufruir um pouco das belezas, que acreditamos existirem no local.

– E como existem, Elói. E como!

– Bem, então esteja à vontade. Temos alguns aposentos na propriedade. Na varanda, encontram-se algumas redes disponíveis para o descanso dos visitantes. Deite-se em uma  delas e, se  gostar, temos  cocos  gelados  na  geladeira, colhidos aqui mesmo. Nas macaúbas e paineiras em frente à entrada, aves de todos os tipos, como maritacas, pássaros pretos, sabiás, dentre outros, vêm-nos brindar constantemente com sua graça, beleza e canto. Passeie pelo sítio, vá ao curral, ao pomar,  à  horta,  ao  lago.  Se estiver animado, vá se banhar nas cachoeiras do riacho. É uma delícia, aquela água fresca e pura.

E ainda complementou:

– Temos algumas frutas da estação, aproveite para saboreá-las. Curta a natureza, o verde, as flores, os pássaros, os animais. Sinta os aromas espalhados pelo ar. Escute com sua alma, os sons que vêm deste lugar tranquilo, coisa quase impossível de se fazer na cidade grande,  devido  ao barulho dos veículos e das indústrias. Absorva este ar puro que vem de todos os cantos do lugar e da redondeza. À noite, observe o céu iluminado pelas incontáveis estrelas e galáxias, coisa que também não se consegue fazer na capital, devido às luzes da cidade. Aproveite ao máximo. Estarei no meu escritório escrevendo, ou então também pelo sítio, aproveitando as dádivas deste local, com que o Criador me agraciou.

 – Obrigado, Elói. Pode ter certeza de que é isso que irei fazer.

E o visitante, após descansar um pouco, passou a percorrer a propriedade, como Anastácio havia recomendado. Experimentou das amoras que estavam maduras – roxas de tão doces -, das pitangas e acerolas vermelhas, de uma fruta-do-conde madurinha que o Joquinha apanhou para ele. Experimentou das mexericas, das laranjas e cajamangas.

Por todo o lado, enquanto andava, encontrava-se rodeado de pássaros e insetos de todas as espécies. Parecia que estava imerso em uma grande festa: a festa da Natureza, o sarau do Criador.

O corpo aos poucos, foi ficando exausto de tanto caminhar de um lado para outro, mas o espírito se renovava de fé, de esperança, de alegria, de uma inexplicável energia que renascia, proveniente daquele contato com o ambiente local.

Assentados em cima de alguns fios estendidos pelos postes que percorriam a propriedade rural, três bem-ti-vis estavam alvoroçados, arrepiando as penas e balançando as asas num agitado frenesi. Com os seus bicos abertos, pareciam disputar um torneio de canto, produzindo um espetáculo de sons que não poderia deixar de ser notado pelo visitante. Um deles cantava:

– Bem-te-vi! Bem-te-vi!

Os outros retrucavam:

– Bem-te-vi! Bem-te-vi! Bem-te-vi! Bem-te-vi!

Era uma coisa boa de se ver, de se ouvir, uma verdadeira algazarra dos pássaros.

Em algumas árvores as cigarras também queriam participar do canto. Pareciam estar chamando a Ceci:

– Sissi! Sissi!

Outras eram mais eloquentes em seu chamamento:

– Sississi! Sississi!

Como uma criança, ele se encontrava, agora, livre para amar de novo. Morria naquele momento o espírito ressentido, desgastado pelo ódio e renascia a alma livre, alegre, destituída dos rancores que a atormentavam.

Era preciso persistir nesse sentimento bom, que novamente, como dantes, brotava com toda a força em sua alma, em sua mente.

Mais tarde, junto com todo o pessoal que se encontrava no sítio, o visitante tomou um lanche, seguido de leite gordo fervido, pães de queijo e outras quitandas, e um café quentinho, aromático, feito na hora pela cozinheira da propriedade rural.

Então Anastácio falou:

–  Vamos ter um encontro aqui neste sítio, ao final deste semestre. Por que você não participa também? Traga sua família: sua mulher e filhos.

– É. Pode ser – completou o visitante.

– Obrigado pela sua visita, José Carlos. Juntos, nós questionamos muitas coisas. Acredito que aprendi muito com essa situação por que você passou.

– Eu também, Elói. Pode estar certo disso.

– Por que você não dorme na propriedade e viaja amanhã de manhã?

Lá fora se escutou o pio estridente da seriema. Provavelmente, em suas andanças pelos campos do cerrado – a ave magra, de longas e secas pernas -, havia se alimentado de alguns roedores ou pequenos répteis, como cobras. Alguns acham o seu canto triste. Outros, como nós, não!

O visitante recusou o convite para pousar no sítio. Precisava voltar para sua terra. Seu Mino o levou de carro até o Povoado do Murici, para que o mesmo tomasse o ônibus.

Havia em seu semblante um novo olhar. Todavia ainda era muito cedo para qualquer conclusão. Mas aquele dia tão especial naquele lugar havia marcado sua vida. Muita coisa a refletir.”

Fotos: Google Images / Reprodução

Autor:
João Francisco de Paula Gomes – A Pousada de Elói –  1ª Ed. Uberaba: Ed. Colégio Cenecista Dr. José Ferreira, 2015

 

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Mudando a Maneira de Pensar – Pensamento Positivo

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Então, gostaram, Poderosas?

Beijos!

 

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